Hábitos Perigosos – Crítica

Quando fui convidado a falar sobre quadrinhos para meus colegas de comunicação em 2014 na Unijuí, na disciplina de Tendências e Inovações, me senti ao mesmo tempo honrado e assustado. Falar sobre quadrinhos me parecia muito distante do que eu imaginava estar dentro dos interesses de meus colegas, afinal não conhecia ninguém que apreciasse esse tipo de leitura além de mim. E qual foi minha surpresa ao perceber que boa parte da turma pegou e leu pelo menos alguns trechos ou tiras e questionavam a cerca de assuntos relacionados a alguns títulos. Também percebi que Batman, X-Men e Vingadores não eram mais exclusividade de admiradores da arte sequencial, que graças a outras mídias um público muito maior se interessou e passou a olhar para estes “gibis” de outra forma, como uma fonte de entretenimento e diversão.

O engraçado é que quando foi proposto de eu escrever para a Usina de Ideias sobre quadrinhos me senti novamente honrado e assustado, ainda mais, desafiado. Elenquei diversos títulos interessantes e busquei histórias que tivessem uma “pegada” mais adulta, que aprofundasse temas mais densos e polêmicos, mesmo que ainda dentro deste universo fantasioso. Também tive certeza que buscaria relacionar com os “multimeios” onde as histórias em quadrinhos têm aparecido, como animações, séries e filmes.

Originalmente essa coluna de estreia seria sobre “A Piada Mortal” (1988), de Alan Moore, que possivelmente ainda será tema de alguma conversa nesse blog e que será adaptada em breve para uma animação. Porém, enquanto preparava o texto sobre “A Piada Mortal” fui atropelado pela notícia da perda de uma ex-professora da Unijuí e colega comunicadora. Sua partida precoce acabou me levando a pensar em outra história: “Hábitos Perigosos”(1991), de Garth Ennis, que tem como protagonista o mago inglês John Constantine e como grande antagonista, o câncer de pulmão em estágio avançado que ele enfrenta.

 

Em “Hábitos Perigosos” não existem maquinações, tramoias ou maldições, recorrentes às histórias do personagem. O que está em xeque, dentro de uma história que é quase um monólogo, é a humanidade e a finitude da vida. Todos os elementos remetem a isto, mesmo em momentos mais fantasiosos, como o encontro com O Primeiro (Lúcifer) ou com O Arrogante (Arcanjo Gabriel), ambos da mitologia cristã, não nos afastam do sofrimento e da constatação desta finitude, não nos distanciam das perdas e do peso de nossas escolhas. “Hábitos Perigosos”, que serviu de inspiração para o filme de 2005, passa longe de sua versão cinematográfica quando pensamos na profundidade como o assunto é tratado, sendo o quadrinho muito mais dramático e duro, com personagens muito mais carismáticos e ainda assim factíveis, muito mais humanos nas páginas do que na tela.

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Tratando do universo de quadrinhos “mainstream”, onde geralmente as histórias tem um aspecto muito mais comercial e raso, “Hábitos Perigosos” se diferencia por sua discussão subjetiva e bastante pretenciosa, se tornando um clássico de leitura obrigatória tanto para velhos adeptos, quanto para novos aventureiros na arte sequencial.

Originalmente publicado em: https://usinacomunica.wordpress.com/2016/03/16/habitos-perigosos/

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